Maria Luisa Cravo: “o Brasil tem uma competitividade natural no âmbito de pesquisa e tecnologia”

A atuação da Coordenação de Investimentos Estrangeiros Diretos da Apex-Brasil ajudou a trazer para o Brasil dois grandes investimentos de empresas internacionais recentemente. A Qualcomm, que fabrica componentes para dispositivos conectados, e a SAP, uma das líderes globais de sistemas de gestão integrada no ramo de softwares de aplicativos. Juntas, as duas vão investir mais de US$ 200 milhões nos próximos quatro anos.

No caso da SAP, a área de investimento da Agência nutre um certo orgulho pelo fechamento do acordo. Afinal, desde 2015 ela vem tentando ampliar as aplicações em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da empresa no Brasil, um movimento que faz parte de uma estratégia maior da Apex-Brasil, que há sete anos concentra esforços no setor.

Para a gerente de Investimentos da Agência, Maria Luisa Cravo Wittenberg, o país tem uma competitividade natural no âmbito de P&D e vem atraindo permanentemente novas inversões. O Blog da Apex-Brasil conversou com Luisa Cravo sobre as negociações com a Qualcomm e a SAP, e como sua área vem atuando juntos às empresas de tecnologia.

Qual a importância dos acordos firmados com a Qualcom e com a SAP?

São investimentos em áreas estratégicas para o Brasil. Eles permitirão a fabricação de produtos com maior valor agregado, além de trazer tecnologia para o país. Esses investimentos têm um impacto grande em termos de qualificação da mão de obra e na geração de empregos. Calcula-se que, juntas, SAP e Qualcomm vão empregar cerca de 1,8 mil profissionais. A Qualcomm pretende instalar uma fábrica na região de Campinas e deverá empregar 1,2 mil pessoas. Já os investimentos da SAP vão para a implantação de um centro de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e devem criar 600 novos postos de trabalho.

Qual foi a participação da Apex-Brasil nessas negociações?

Foram duas participações diferentes. No caso da Qualcomm, quem esteve à frente do grupo de trabalho foi o Ministério de Ciência Tecnologia Inovações e Comunicações. Nós trabalhamos mais como integrantes de um grupo governamental de semicondutores e nos apresentamos como porta de entrada de investimento no país. Já com a SAP foi fruto de uma relação que se dá desde 2015, quando iniciamos movimentos de aproximação para tentar ampliar os investimentos da empresa em P&D no Brasil. Foram inúmeras reuniões e atividades até que o anúncio fosse feito.

E como se deu essa ação junto à SAP?

P&D é uma área em que a Apex-Brasil atua desde 2010, em ações conjuntas com o Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio (MDIC). A SAP tem o perfil de empresas que procuramos para investir no Brasil. Está no país desde 1997, possui um centro de pesquisa no Rio Grande do Sul e tem projetos de ampliação desses centros. Foi natural buscarmos uma aproximação, ter uma atitude mais propositiva. Assim que iniciamos o trabalho, fizemos um esforço focado em duas áreas: provimento de informações e conexões. É uma tarefa que fazemos normalmente para o investidor de acordo com a necessidade deles.

Como funciona isso?

É basicamente a coleta de dados sobre o Brasil. Informações sobre a área de tecnologia, número de pesquisadores disponíveis no país, estudos sobre o setor de telecomunicações, internet das coisas, etc. Também fazemos a intermediação de atores. No caso da SAP, colocamos o pessoal da empresa em contato com o Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio, do Ministério da Ciência e Tecnologia e com a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). Ajudamos o processo a transcorrer de forma mais coordenada com os órgãos de governo, que têm um papel super-relevante em qualquer investimento que chega ao país.

E esses investimentos já estão garantidos?

São dois acordos grandes e importantes para o Brasil nesse momento. Mas o país tem que fazer o dever de casa para que eles se realizem de fato. O país deve prover uma série de facilidades previstos no memorando para viabilizar esses investimentos. Mas estamos confiantes que tudo correrá bem.

Como você avalia as ações de atração de investimento em P&D e tecnologia desde que a Apex-Brasil começou a operar nessa área?

Eu acho que o Brasil vem atraindo investimento de maneira permanente, principalmente em Tecnologia da Informação. Empresas de desenvolvimento de software, por exemplo, veem o Brasil como um país vantajoso até pelo tamanho do mercado doméstico. Na parte de P&D o Brasil chama menos atenção, embora nós tenhamos uma atratividade que muitas vezes não é reconhecida pelo investidor estrangeiro.

Qual a dificuldade em buscar investimentos em P&D?

Normalmente, uma empresa só vai estabelecer pesquisa em um país se ela tiver alguma atividade produtiva ali. Existe uma escada para o investimento em P&D. Você começa exportando para o país, depois passa a prover serviços, em outro momento estabelece um escritório comercial, depois algum tipo de manufatura e, só depois disso tudo, parte para a pesquisa. Então não sei se um dia o Brasil será o centro mundial de inovação, mas eu acho que nós podemos explorar pesquisa em determinados setores que temos competitividade.

Nos dê um exemplo, por favor.

Por exemplo a tecnologia para exploração do pré-sal. As empresas que trabalham com petróleo e gás nessa área só estão pesquisando aqui. E tem outros. Na área de saúde temos uma série de pesquisas em doenças tropicais, algumas das quais visam desenvolvimento de vacinas. A área de energias renováveis também é muito atrativa. O Brasil tem alta incidência solar e bons ventos. Naturalmente algum tipo de pesquisa pode ser realizado aqui. São tecnologias desenvolvidas localmente que podem ser negociadas globalmente.

Mas o Brasil tem ambiente de negócios para isso?

Temos alguns desafios pela frente, mas eu acho que se focarmos nessas áreas em que temos diferenciais competitivos, conseguiremos retorno. As empresas estão dispostas a encarar desafios para poder realizar pesquisas no Brasil. O governo vem trabalhando para criar condições melhores para o investidor. Existe, por exemplo, uma força tarefa do Ministério do Desenvolvimento para diminuir o tempo de registro de patente. Hoje o tempo é de seis anos. Querem diminuir para três. Existem iniciativas localizadas em gargalos específicos para melhorar o ambiente de negócios. Nós temos que fazer um trabalho interno de coordenação e é isso que estamos fazendo agora. Estamos trabalhando para ser a porta de entrada do investidor estrangeiro no âmbito federal.

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