#BeInnovative: “A escola de hoje é uma proposta filosófica do século XVII” 

O português José Pacheco nasceu na cidade do Porto. Não teve uma infância fácil. Era pobre, viveu em cortiços e sofreu todo tipo de humilhação e exclusão. Apesar das dificuldades, conseguiu se tornar eletricista, engenheiro e, mais tarde, professor. Quando fala de sua motivação para se tornar educador, diz sem perdão: “Quem vai para o mundo da educação, vai por dois motivos: ou por amor, ou por vingança. Eu fui por vingança”.

A motivação pela profissão, repetida à exaustão por Pacheco, no entanto, não expressa em nada o que ele representa para a educação. Hoje ele é reconhecido como um dos educadores mais respeitados do mundo. É escritor, autor de 18 livros e, o mais importante, fundador da escola da Ponte, em Portugal, proposta revolucionária de ensino que nasceu de uma questão levantada por qualquer professor: por que é que nós damos aulas tão bem dadas e, ainda assim, há alunos que não aprendem?

A resposta para a indagação é quase que óbvia. “Nós compreendemos que era a escola que produzia insucesso, porque a escola vinha de um modelo desenvolvido no século XVII”. Assim nasceu a Ponte, uma escola onde não existem muros, portas ou salas de aula. Muito menos deveres de cada e provas. O novo modelo de aprendizagem é baseado na ética e na formação do aluno como cidadão. Para Pacheco, o ambiente e as relações humanas são os principais motores da educação de qualidade. “Escolas são pessoas, não são edifícios. E o que são pessoas? São valores”, costuma dizer.

O método, que dá grande autonomia para professores e alunos, já criou sementes que frutificaram mundo afora. Uma dela está no Brasil, em Cotia, interior de São Paulo. Trata-se da escola Âncora, que neste ano foi eleita uma das 12 escolas mais inovadoras do mundo pela Fundação Roberto Marinho. Outro está para nascer no Distrito Federal, a escola do Paranoá, que “será a primeira comunidade de aprendizagem do mundo”, segundo Pacheco.

Foi justamente por olhar o mundo de uma maneira diferente, por pensar em profissionais forjados em valores elevados e por se arriscar em caminhos ainda inexplorados, José Pacheco foi convidado a fazer uma palestra na sede da Apex-Brasil, que traz em seu discurso a necessidade da inovação e a perspectiva de uma postura calcada no desafio.

O Blog da Apex-Brasil não poderia perder a oportunidade de trocar uma palavrinha com esse educador que está ajudando a construir uma geração melhor que a anterior. Leia abaixo como foi nossa conversa com José Pacheco. Explique o modelo da escola a Ponte, que está servindo de base para experiências importantes no campo educacional. A escola da Ponte é uma instituição pública que ajudei a formar em Portugal em 1970. Lá não há séries, ciclos, turmas, anos, manuais, testes e aulas. Os alunos se agrupam de acordo com os interesses comuns para desenvolver projetos de pesquisa. Há também os estudos individuais, depois compartilhados com os colegas. Os estudantes podem recorrer a qualquer professor para solicitar suas respostas. Se eles não conseguem responder, os encaminham a um especialista. Ali não há salas de aula, e sim lugares onde cada aluno procura pessoas, ferramentas e soluções, testa seus conhecimentos e convive com os outros. São os espaços educativos. Hoje, eles estão designados por área. Na humanística, por exemplo, estuda-se História e Geografia; no pavilhão das ciências fica o material sobre Matemática; e o central abriga a Educação Artística e a Tecnológica.

Você diz que esse método é para formarmos homens para um mundo novo. O mundo que temos hoje é fruto de uma escola atrasada? A escola perdeu o rumo e não acompanhou o desenvolvimento. A escola que temos agora é uma proposta filosófica do século XVII que foi aproveitada na revolução industrial. Ela está aí, embora de vez em quando apareça uma tecnologia para enfeitar. A verdade é que existe um desajuste muito grande entre aquilo que é o desenvolvimento humano e aquilo que se faz em uma escola. Isso se traduz nas crises econômicas e éticas que nós estamos imersos.

E o que vai ser da educação no século XXI? É impossível dizer. Hoje as mudanças são tão rápidas que seria uma precipitação apontar para qualquer cenário. O que eu sei é que daqui há sete anos 85% das profissões que existem vão deixar de existir e isso tem a ver com currículo. Para que que a escola está formando as pessoas? Quem está formando e para quê?

Hoje a palavra da moda é inovação. É mais difícil inovar na educação que em outras áreas? É sim, porque há muitos equívocos. Inovação é aquilo que é inédito, tem valor e pode ser disseminado e multiplicado em temos de escala. Tem gente colocando horta comunitária e introduzindo ioga na escola. Isso não é inovação. Isso é colocar paliativos em um velho modelo.

E o uso da tecnologia em sala de aula e projetos que ensino a distância? Isso não é um passo além? É uma ilusão pensar que dando lap tops para os alunos ou dando instalações mais cômodas estaremos mudando o sistema. Isso ajuda, evidentemente, mas acho que as pessoas têm uma visão de inovação e educação muito distorcida. Escolas que inovam e educam são escolas que entram em ruptura com o modelo tradicional. Assentam a mudança na tradição e partindo das pessoas que estão ali, dos professores e alunos, do que elas sabem e dando tempo e condições para que elas se transcendam. Em educação, falar em inovação requer saber sobre o que está se falando. Participei em um grupo de trabalho sobre esse tema e percebe-se que as pessoas são um dos primeiros obstáculos à inovação.

Quais são esses obstáculos? São vários. Quando vemos quais são as maiores barreiras à quebra de paradigmas vemos como resposta: “sou eu”. É minha cultura. Também são os alunos, que estão habituados a um tipo de escola. A família e a sociedade também, porque pensam que a escola tem que ser como sempre foi. Depois tem a formação dos professores, que reproduz o modelo escolar tradicional. E, muitas vezes, o poder público, que não dá continuidade aos projetos que se iniciam e iniciam outros que não serão terminados.

O senhor sempre cita o Brasil como berço dos grandes educadores do mundo. Anysio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freyre, entre muitos outros. Por que o Brasil não tem a educação que todos desejam? Esse é um dos grandes paradoxos do Brasil. Buscar fora o que ele tem aqui dentro. Aqui tem tanta gente, da melhor qualidade, e o Brasil desconhece. Já houve projetos incríveis de educação, como os colégios vocacionais nos anos 60. O Brasil não valoriza seus pensadores e parece não ter amor próprio. Mas isso vai mudar. Aliás, já está acontecendo agora com projetos como o Âncora e a escola do Paranoá e estou feliz de fazer parte disso.

Saiba mais sobre casos de inovação no empreendorismo brasileiro no exterior em www.bebrasil.com.br/pt – Conheça mais sobre a Escola da Ponte em https://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_da_Ponte

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