“As exportações ampliam o tamanho dos mercados com os quais os empresários podem contar”

Mesmo com a onda protecionista que varre o mundo, o Brasil pode encontrar uma janela de oportunidade e se reposicionar no comércio internacional. A opinião é do economista Paulo Levy, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que participou nessa semana da abertura do Encontro de Coordenadores do Programa de Qualificação para a Exportação (PEIEX), realizado na sede da Apex-Brasil, em Brasília.

O professor, que integra a diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas do IPEA, é especialista em crescimento econômico e apresentou aos 33 coordenadores do PEIEX uma visão geral do cenário internacional para 2017. Analisando os impactos político-econômicos mais recentes, ele fez a construção de um cenário no qual o Brasil pode se beneficiar.

Levy também falou sobre competitividade e a importância de se fomentar a cultura exportadora na mentalidade do empresário brasileiro. Confira a entrevista!

Apesar da economia global dar os primeiros sinais de recuperação desde 2008, existe uma onda protecionista no mundo expressa mais notadamente na saída do Reino Unido da União Europeia e na eleição e no discurso do presidente americano Donald Trump. Como fica o Brasil nesse cenário de retração do comércio exterior?

Temos que ver as questões relacionadas à forma em que o Brasil se insere no contexto internacional. A primeira delas é a que existe um movimento de recuperação das taxas de crescimento global resultante da aplicação de políticas monetárias e fiscais expansionistas. É um caminho diferente daquele que vimos imediatamente depois da crise de 2008 e que, certamente, vai abrir caminho para novas perspectivas no comércio internacional. O Brasil, uma vez que tenha endereçado as questões domésticas, de equilíbrio de contas e de competitividade, teria uma janela de oportunidade associada ao aumento de protecionismo no mundo, em particular nos EUA, cujo presidente tem sinalizado com restrições às exportações para seu país. O Brasil poderia ocupar um espaço que deixou passar em branco nos últimos anos, que é a produção de acordos de livre comércio com outros países. Cito a parceria Transpacífico, da qual os EUA abriram mão. A decisão americana pode levar a um rearranjo no qual permitiria ao Brasil se associar às economias do leste asiático e da costa do Pacífico na América Latina, que vêm se revelando bastante dinâmicas.

Como você acha que o Brasil pode ser tornar um país cada vez mais competitivo no mercado internacional?

Há um esforço importante no sentido de corrigir distorções que têm reduzido a competitividade da economia brasileira. Nos últimos meses, foram anunciadas várias medidas que podem melhorar o ambiente de negócios e reduzir a burocracia, além de propostas que garantem que a estabilidade macroeconômica seja permanente. Estão colocadas na mesa a necessidade de uma reforma tributária e o aumento da abertura da economia brasileira. E isso é importante, porque o comércio internacional atua em duas mãos. As importações são um fator importante para termos acesso a insumos mais modernos e tecnologias mais avançadas, o que contribui para aumentar a competitividade brasileira. A ideia seria você promover uma redução gradual de barreiras tarifárias e não tarifárias, aumentar os acordos comerciais do Brasil para estimular o comércio exterior, estimular as exportações com um câmbio mais competitivo, decorrente da estabilidade macroeconômica, o que permitiria uma redução maior das taxas de juros. Isso tudo junto colocaria em marcha um círculo virtuoso, em que a abertura comercial permitiria ganhos de produtividade e aumentaria a competitividade do Brasil.

E o papel do exportador nesse processo todo? Você falou muito da importância da inovação para o crescimento das economias.

É verdade. A questão da inovação é chave para explicar o crescimento das economias. Mas, para o Brasil em particular, ela é importante na medida em que a inovação assume o caráter de adoção de técnicas mais modernas, métodos de produção mais avançados, design, produtos, que já estão disponíveis no resto do mundo e que no Brasil podem ser mais utilizados. Se existe uma fronteira tecnológica que é dada pelos países mais avançados, o Brasil poderia tomar o atalho que é absorver essas tecnologias para acelerar os ganhos de produtividade. Essa absorção de tecnologia, claro, tem custos, mas esses custos são compensados pelo retorno propiciado por essa absorção. Para isso você tem que ter mão de obra mais qualificada, centros de treinamento e disposição de prospectar lá fora. Mas isso é uma cultura que vai se desenvolvendo gradualmente no Brasil e que tende a ser tanto mais disseminada quanto mais estável for ambiente de negócios.

Como você avalia o trabalho da Apex-Brasil em relação a essa formação de cultura exportadora.

É extremamente positivo. Eu mencionei a cultura da exportação e o papel da Apex-Brasil é exatamente esse: estimular as empresas a enxergarem no mercado externo não apenas uma válvula de escape para momentos em que a demanda interna esteja relativamente baixa, mas sim como uma fonte de ganhos, de eficiência e de produtividade. Então, o papel da Apex-Brasil é fundamental, seja treinando os empresários em como exportar ou revelando as oportunidades existentes para essas exportações. A Agência faz parte desse quadro mais geral de melhoria de ambiente de negócios e de ampliação de oportunidades de investimento para os empresários brasileiros.

Como você avalia a importância do Programa de Qualificação para a Exportação (PEIEX), que prepara o empresário brasileiro para o comércio exterior?

É outra medida fundamental na disseminação da cultura de exportação. É importante notar que hoje a indústria moderna acaba se beneficiando muito dos ganhos de escala. As exportações têm esse papel de ampliar o tamanho dos mercados com os quais os empresários podem contar e, portanto, são uma fonte de diluição dos custos fixos, fundamentais para aumentar a rentabilidade. Empresas que vendem em mercados regionais, limitados, dificilmente têm condições ou mesmo interesse de investir pesado em equipamentos, instalações, aquisição de tecnologias. É exatamente a perspectiva de ganhar escala que leva à redução dos custos e, portanto, ao aumento da rentabilidade. O papel da Apex-Brasil e o treinamento dos empresários em como explorar essas oportunidades de exportação é bastante importante nesse contexto.

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